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quarta-feira, dezembro 24, 2003

Tenho muitas lembranças de Natais na casa dos meus avós, em São Gonçalo. Na rua em que eles moravam, outras cinco casas pertenciam a tios meus. Por isso, reunir a família em torno da casa de vovó Irene era tarefa fácil. Uma festa.
Antes de ir para lá, em casa a rotina se repetia a cada ano: eu chorava de saudade do meu avô Caio, que tinha partido quando eu tinha apenas cinco anos, mas que me fazia falta ainda assim; mamãe preparava o peru e a salada de bacalhau para levar e papai tratava de colocar os presentes em nossas camas depois que eu e Caio já estávamos no carro.
Ao chegar na casa de vovó, a cena era a mesma: família em torno da TV, vendo o especial do Roberto Carlos. Ainda me lembro do ano em que ele lançou a música das Baleias, de Cama e Mesa e outros hits. Mamãe tinha todos os LP’s do Rei.
Ah, teve o Natal do Balão Mágico. “Superfantástico, no Balão Mágico, o mundo fica bem mais divertido.” Quando o LP acabava, vinha invariavelmente o pedido: “tia, coloca outra vez”. Antes da meia-noite, todos se reuniam em volta da mesa para saudar o Natal e agradecer por todos, numa família de 10 irmãos e mais de 20 primos, estarem juntos e vivos naquele momento. Nas orações, o fato de não termos perdido um ente querido era sempre exaltado. “Nossa família tem que agradecer por isso. Somos privilegiados”.
A certa altura, eu ficava ansiosa e queria logo ir embora. Papai Noel tinha deixado o meu presente e eu precisava conhecer a surpresa. Dia seguinte, no almoço de Natal, os primos chegavam com os novos brinquedos. Eu sempre carregava uma boneca nova ou miniaturas de eletrodomésticos (fogãozinho, máquina de costura, cozinhas completas). Meu irmão ganhava carros e jogos, com os quais eu passaria o ano seguinte querendo brincar...
Quando cresci, e parei de ganhar brinquedos, minha diversão no Natal era tomar vinho com meu pai. Começávamos cedo, ainda na vila, antes de ir para casa de vovó. Jaqueline e Juliana, minhas melhores amigas, também nos acompanhavam. Teve um ano em que a Jaque se vestiu de Papai Noel para as crianças da vila. Ho ho ho pra lá ho ho ho pra cá e as crianças não ficaram muito convencidas com aquele Papai Noel de pés delicados, tonto e de fala arrastada. Estava bêbada.
Este é o terceiro ano que a família não se reúne mais na casa de vovó. Desde que vovô Alcebíades partiu, em abril de 2000, a família não comemora mais o Natal junta. Agora é cada um na sua casa. Os tios ainda moram na mesma rua, mas agora também já viraram avós. Meus primos, quase todos, estão casados e com filhos.
Desde então, a ceia passou a ser no apartamento dos meus pais. Ela reúne meu irmão, sua mulher e meu sobrinho, João Gabriel. A chegada dele fez, finalmente, a minha mãe comprar a primeira árvore de Natal da minha casa. A história agora é outra, mas de alguma forma se repete: mamãe passa o dia na cozinha preparando o peru e a salada de bacalhau, eu ajudo na arrumação da mesa, onde nunca faltam as nozes, os coquinhos, as passas, as frutas, as castanhas e a rabanada; choro de saudade dos meus dois avôs que partiram e meu irmão chega para alegrar a festa com o filho. Meu pai parou de tomar vinho. A diversão dele agora é brincar com o neto.

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