Lameblogadas

quinta-feira, abril 05, 2007

Não posso dizer que antes de conhecer a obra de Noel Rosa, eu ignorava o samba. Mas afirmo que não tinha com ele, o samba, a relação que passei a ter depois de ouvir as primeiras letras do poeta da Vila. Foi ali, mais ou menos em 1998, que travei contato com um CD songbook que tinha os clássicos "Com que roupa", "Conversa de botequim", "Gago apaixonado" e outros cantados por famosos de nossa MPB. Na mesma época, achei na biblioteca da UFF um livrinho com letras de Noel e Ismael Silva. Precisava fazer um trabalho de história sobre música e escolhi, entre alguns BRocks dos anos 80, umas musiquinhas de Noel. Desde então, e o segundo achado nesse universo infinito do samba foi Cartola, passei a ter o estilo como meu preferido. Aos poucos, fui conhecendo uma coisa e outra, por vias bem diversas, até chegar ao Bip Bip, conhecer um certo cantor que começava carreira na Lapa, descobrir Aracy de Almeida e comprar alguns livros para estudar, por prazer, o meu gênero musical predileto.

A biografia do Noel repousava na minha estante há uns três anos, mais ou menos. Lembro quando comprei, por dica da Paulinha, que eu conheci porque ela "gostava de samba", por encomenda na Livraria Folha Seca. Era o penúltimo exemplar que o Rodrigo Ferrari tinha. E mandou me entregar. Já tinha tentado ler umas duas vezes. Mas livro é assim: pode ser muito bom, mas às vezes não gruda. O início me dispersava, com aquela história enorme sobre os antepassados de Noel. Mas, como o mundo gira e a lusitana roda, outro dia consegui engrenar a leitura. Que prazer quando encontramos aquela obra que vai marcar pelo resto da vida. Antes da metade do livro, já sofria de ansiedade: não queria terminar, muito menos ler o desfecho da história, de todos conhecida. Noel morreria a qualquer momento, e eu senti que teria o impacto, para mim, de uma morte atual.

Eu tenho esse apego aos personagens. Sonho várias vezes com mortos, como Glauber. E vivíssimos, como Chico. (É assim com os entrevistados também, mas o parêntese aqui seria longo, mas já é de madrugada e preciso dormir logo). Não demorou para me envolver com a história de Noel. Conhecer os personagens que povoaram sua Vila Isabel dos anos 20 e 30. Ouvir as falas, imaginar as roupas, sentir os cheiros, chorar, rir, sentir como se lá estivesse, observando ao lado, como se a filmar sua vida. Não sei de quem é o texto, já que o livro é assinado por dois autores, mas desconfio que seja do João Máximo. A intimidade com a história de Noel, me disseram, é coisa do Carlos Didier (Caola para os próximos). Que texto! Além de muitíssimo bem escrito, é perfeito na revisão. Encontrei dois erros bobos de digitação e um de português num tijolaço de 500 páginas, e grandes.

Que gênio foi Noel. Difícil de escolher agora entre ele e Cartola. É pena que, apesar de terem sido muito amigos, pouco compuseram juntos. Eu não teria dúvidas em apontar a parceria perfeita como a melhor tradução do que melhor foi feito na música brasileira em todos os tempos. Mas, se é para escolher, fico mesmo com Noel. No meio da leitura, parei muitas vezes para ouvir as desconhecidas, para mim, em acervos na internet (Instituto Moreira Salles) ou em discos que já tinha (Mario Reis, Francisco Alves, Aracy de Almeida).

Não penso em outra coisa, que não Noel, desde que terminei de ler o livro. Até engatei em outro, sobre a vida de Almirante, escrito pelo Sérgio Cabral, e que tinha me chegado ao conhecimento por meio de aulas do professor Dênis sobre a cultura brasileira. A idéia era simples: estudar o rádio lendo a vida de Almirante; a literatura conhecendo a história de Graciliano Ramos; a bossa nova por meio do Chega de Saudade, de Ruy Castro; o Cinema Novo, por Glauber Rocha. Mas é Noel que ocupa minhas horinhas musicais.

E é ele quem me faz visitar o blogger, para escrever este post. Pretendo vir aqui mais vezes, até o dia 4 de maio, data de aniversário de 70 anos da morte de Noel. Até lá, pretendo postar as músicas de que mais gosto, as que descobri pelo caminho, as que revisitei neste tempo e, por último, a minha preferida. É pena que não domino as técnicas de internet, para colocar aqui os links das gravações.

A da música abaixo é hilária. Tem um registro, por Noel e o Bando de Tangarás, que é sensacional. Hoje mesmo devo tê-la ouvido umas 17 vezes. Eu queria muito que ela entrasse no repertório de uma certa dupla de sambistas, que anda fazendo sucesso num musical, que retornará aos palcos no início de maio, ali pelas bandas da Praça Tiradentes.

Picilone (Noel Rosa)

Yvone (Yvone)
Yvone (Yvone)
Eu ando roxo
Pra te dizer um picilone

Já reparei outro dia
Que o teu nome, ó Yvone
Na nova ortografia
Já perdeu o picilone

É pra ganhar simpatia
Que todo mundo se abaixa
Pra te fazer cortesia
Com os olhos fora da caixa

Tem uma vida folgada
Não faz mais nada, a Yvone
Até já tem empregada
Para atender telefone

Cansei de andar só de tanga
Já perdi a paciência
Fui te encontrar na Cananga
Mas não me deste audiência

2 Comments:

  • Gostei muito daqui.
    Meu primeiro contato com Noel Rosa foi ainda criança, quando meu pai fazia faculdade de Licenciatura em Música e estudava a vida do rapaz. Ele cantava o tempo todo pra mim "...e com que roupa..." porque eu não tirava um vestido branco com renda azul (coisa de criança).
    Perguntei quem era aquele com queixo esquisito na foto e ele disse: "filha, você tem que estudar música para entender."
    Foi o que fiz. rs
    Bou esperar mais posts sobre Noel.
    Abraço

    By Anonymous Ana, at 3:13 PM  

  • Oi, Ana. Seja bem-vinda. Que sorte a sua conhecer Noel desde cedo. Sabe que não consigo achar Noel feio? Acho até bonitinho, mesmo com o defeito no queixo.

    Beijos

    By Blogger Cláudia, at 11:08 PM  

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