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terça-feira, junho 14, 2005

À mercê da maré

Não há como negar um certo fascínio que a minha profissão suscita em cada um de nós, jornalistas. Trabalhando em jornal, ainda mais em editorias como a de cidade, política e bairros, estamos a cada semana lidando com pessoas diversas, visitando lugares que jamais pisaríamos como comuns e testemunhando situações que afetam a vida de outros. Para quem tem interesse no ser humano, não há oportunidade melhor.

O nariz de cera é só para contar a experiência de ter conhecido, na última sexta-feira, a Vila Olímpica da Maré. Já tinha entrado na comunidade da Vila do João, também no Complexo da Maré, ainda como estagiária, para acompanhar um evento promovido pela polícia militar. Não faz tanto tempo assim, mas a vida por lá ainda era um pouco mais tranqüila. A vila olímpica fica exatamente na área conhecida hoje como a "Faixa de Gaza", um limite geográfico entre as favelas dominadas por três facções diferentes.

"Entre a vila e o Ciep, quem manda é o Terceiro Comando. Do Ciep para lá é o Comando Vermelho, da vila para o outro lado é o ADA", explica um dos coordenadores da vila esportiva. Conviver com esse ninho de pólvora é uma arte que me despertou muita curiosidade. Como lidar com o tráfico? Como atrair os moradores do outro lado para a prática esportiva? Como interpretar os sinais de que a "maré vai subir" naquele dia e os portões têm que ser fechados mais cedo?

Confesso que nem estava com medo quando o carro do jornal entrou na rua estreita que nos levaria à entrada do lugar. Mas ao saltar do veículo, senti que o clima estava longe de ser tranqüilo. Os guardas municipais nos receberam com muita cordialidade e avisaram: nada de circular por aqui sozinhas, sem um de nós ou um dos coordenadores do lado. Depois eu entendi o motivo da preocupação: eles também respondem pelo que a imprensa vier a publicar. Ou seja, nossa proteção tem a ver também com a dos freqüentadores-moradores e a do próprio tráfico.

As regras de convivência são claras. Como num relacionamento, cada um cede um pouquinho. Nós implantamos as atividades esportivas aqui, vocês apontam as armas para o outro lado. Os moradores que não têm parentesco com as pessoas do "movimento" podem circular, ainda que com cautela, nos limites da "Faixa", os que infelizmente têm ligação familiar, não. E assim vão vivendo em paz até a hora da próxima guerra...

Não estou aqui contando novidades, apenas constatando que a realidade é muito mais difícil de ser digerida quando a vemos diretamente. Saber que existe, ler no jornal ou ver na TV é muito diferente de conhecer ao vivo. Fui embora cedo, antes da hora do almoço, e estou até hoje tentando imaginar como é o anoitecer naquele lugar.

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