Lameblogadas

segunda-feira, janeiro 08, 2007

Passavam das dez da noite quando o telefone tocou na redação.

_ Globo, Nacional.
_ Oi, eu queria uma ajuda. Você é jornalista?
_ Sim, pois não.
_ Eu queria saber o que é a Alca...
_...
_ Estou fazendo um trabalho para a escola e o professor pediu para explicarmos o que é. Também tenho que falar sobre o Mercosul. Você pode me ajudar?
_ Eu posso te ajudar, mas acho que você deveria ter procurado fazer a pesquisa na biblioteca da escola, na internet, com os amigos. Para quando é o seu trabalho?
_ Tenho que entregar amanhã. Deixei pra cima da hora, agora não tenho computador em casa e não tenho a quem recorrer. Eu moro em Petrópolis, e a minha escola não tem biblioteca.
_ Mas como você teve essa idéia de ligar para o jornal?
_ Ah, eu sei que vocês, jornalistas, sabem de tudo. Então, resolvi ligar. Você me ajuda?

Achei a menina irresponsável, por não ter feito o trabalho da escola a tempo. Mas quantas vezes não fizemos isso durante a vida escolar e até acadêmica? Achei muito criativa a idéia de ligar para um jornal às 22h para resolver o problema. E, como ela tinha sido educada, resolvi ajudar. Perdi uns bons vinte minutos dando uma aula, por telefone, de geografia política pra ela. Aproveitei para perguntar se ela lia jornais, gostava de se informar, enfim, e dei umas dicas de estudo para a menina.

(eu tenho muita vontade de ser professora. gosto muito de ensinar as pessoas a buscarem seus próprios caminhos, além de informá-las sobre determinadas coisas)

Esse foi apenas um dos muitos telefonemas curiosos que recebemos aqui. Como também dependemos dos leitores para conseguir pautas (muitas grandes reportagens nascem dessas ligações telefônicas), e os nossos telefones são públicos, não há filtros que nos livrem também dos malucos, insones, carentes e outras espécies humanas que, muitas vezes, nos atormentam (a palavra é essa mesmo) - principalmente nos fins de semana.

No auge do escândalo do mensalão, uma senhora ligou, eu atendi e ela me disse umas três frases do tipo "vocês não vão conseguir derrubar o Lula" e desligou subitamente. Uma outra senhora queria saber o que fazer para entregar uma carta. Eu dei o email e o telefone da seção, mas ela disse que não tinha internet e que gostaria de entregar pes-so-al-men-te. Segue o diálogo:

_ Eu estou com o coração muito apertado por causa dessa crise do governo Lula.
_ Sei.
_ Então, escrevi uma carta grande, com esse meu pensamento.
_ A senhora pode mandar pelo correio comum também, te dou o endereço.
_ Não quero. Eu prefiro entregar a você, aí no jornal.
_ Mas eu não trabalho no setor das cartas. Não é melhor a senhora mandar pelo correio?
_ Você é jovem, minha filha, e não está entendendo. Eu quero entregar a carta na sua mão, quero que você leia para, então, a gente conversar sobre essa crise.
_ Mas, senhora, eu sou repórter, é difícil me encontrar aqui.
_ Ai, meu Deus!! É por isso que eu gostava do JB. Lá, tinha jornalista educado, que me recebia, lia as minhas cartas...
_ ???
_ Hoje em dia, a gente não consegue mais entrar nos jornais.

Não me lembro o que falei para convencê-la a desistir, porque nenhum jornalista do Globo faria o que ela queria. Mas não perdi as estribeiras. Tenho a maior paciência com os leitores. Um dia, ligou para a Rio um senhor que queria saber o canal do SportV. Eram pouco mais de oito da manhã, só havia mulheres (eu, inclusive) na redação, o Esporte estava vazio. Ninguém sabia, o homem gritava do outro lado da linha: "o jogo vai começar, vocês publicaram o horário, mas não disseram qual era o número do canal. eu não posso perder o jogo".

Começamos a zapear a TV para tentar encontrar. Aí chega o Carnaval (o fotógrafo que viaja pelas Américas e atualiza um blog no online sobre suas aventuras) para nos salvar. "É o 39!! Não é possível que vocês não saibam". Leitor com a informação, tudo resolvido.

Tem certas coisas que, até a gente começar a fazer, não imagina nem que saiam publicadas no jornal. A loteria é uma delas. Aqui na Nacional somos nós, redatores, que todos os dias consultamos o site da Caixa Econômica e colocamos os números na folha do dia seguinte. Quase diariamente, senhores e senhoras sem acesso à internet nos ligam para saber.

_ Minha filha, pode me falar os números da Lotomania?
_ 1, 2
_Não, 01, 02.
_ 04, 06, 18, 19...

Ontem, a coisa foi diferente. Um homem ligou e, gritando, perguntou por que o jornal não publicou o número da Mega-Sena no jornal dele, assinante há não sei quantos anos (esse é um clichê dos leitores). Eu comecei a explicar que o jornal fecha cedo no sábado, que a loteria sai tarde e que ele, provavelmente, não recebeu os poucos exemplares que traziam o resultado. Quer dizer, tentei falar, mas ele não deixava.

_ Mas o jornal vai publicar amanhã de novo os números.
_ Eu não vou esperar até amanhã para saber. Quero saber agora. Você sabe há quantos anos eu assino este jornal?
_ Meu senhor, eu vou continuar conversando com o senhor, mas exigo um mínimo de educação para falar comigo.
_ Você pensa que está falando com quem? Eu vou reclamar com o meu "amigo". Eu vou parar de assinar o jornal.
_ O senhor é quem decide.
_ Você prefere que eu reclame de você com quem? O Roberto Irineu, o João Roberto ou o ... (não lembro o nome do terceiro filho agora)?
_ O senhor decide.
_ (gritando) Eu quero saber os números da loteria.
_ Se o senhor for educado, eu falo. Mas o senhor vai ter que esperar. Vou ter que checar na internet.

Quem me conhece, sabe que sou calma. Pelo que escrevi antes, dá para ver que sou paciente. Só não aceito violência, intolerância, grosseria, falta de educação. Depois que desliguei, fiquei tentando imaginar o visual da figura. Não consegui. Mas tenho certeza que é um desses tipos que escrevem para o jornal pedindo pena de morte, elogiando as milícias e aplaudindo a senhora de Copacabana que atirou num assaltante e, depois, disse que todos os mendigos deveriam ser levados num barco e jogados no mar. Deve ser um desses que condenam a violência no país. Mas só a dos outros.

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