Lameblogadas

segunda-feira, dezembro 05, 2005



Seis da tarde. Rádio ligado. Mamãe se despedindo de papai no portão, antes dele ir para o trabalho no banco. Panela de pressão no fogo, eu brincando com minhas bonecas, sonhando com o meu futuro. Pensava até em ser jogadora de basquete, nunca me imaginei jornalista. Acho que nem conhecia a profissão... Minhas brincadeiras prediletas: receitar remédios para os meus bebês de brinquedo (sempre fui meio hipocondríaca), pular corda, jogar queimado e brincar de casamento.

Seis da tarde. Toca a Ave-Maria no rádio. Eu ponho o vestido branco de mamãe, a guirlanda velha na cabeça e saio desfilando. Minhas amigas também experimentam. Improvisamos um altar. Só falta o noivo e a maquiagem. Uma vizinha não gosta da brincadeira porque, gordinha, nela não cabe o vestido de noiva. Mamãe tinha uma cinturinha...

Seis da tarde. A Ave-Maria toca na Igreja e mamãe aparece de noiva na porta. Papai no altar, a chuva torrencial lá fora. Eles dizem sim e tiram foto dentro do carro. Adoro reconhecer os primos pequenos e os tios ainda com cabelos no álbum de casamento dos meus pais. Mamãe com bolo no colo, taças se cruzando, crucifixo. Não há nada que faça eu me lembrar mais desse tempo de infância e pré-adolescência que o som da cigarra "cantando" ou o da Ave-Maria tocando no rádio. A música que inspirava meus sonhos de entrar na igreja vestida de noiva.

O tempo passa, nós abandonamos os desejos pelo caminho... Com 30 anos e os músculos dos braços já começando assustadoramente a balançar, já não dá mais para pensar em vestido de noiva com botões de pérola e um véu de arrastar no chão. É nisso tudo que penso quando chega ao fim o documentário "Morro da Conceição", numa sessão às seis da tarde no Unibanco Arteplex. Por que Cristiana Grumbach termina o filme ao som da Ave-Maria da minha infância e dos meus sonhos? No fim da projeção, estou como seus personagens que procuram, com o olhar no infinito, as reminiscências de suas histórias.

Belo filme, que conta a história de um lugar que ainda conserva seu passado por meio da arquitetura envelhecida e da memória dos seus moradores, que depõem magistralmente sobre suas Existências. A diretora é discípula de Eduardo Coutinho e conseguiu, com seu primeiro longa, superar o mestre - pelo menos em comparação ao filme que ele também pôs em cartaz na cidade atualmente. O que sobra em "Morro da Conceição" - um bom lugar e uma prosa solta - falta no caminho de Coutinho em direção ao sertão paraibano. O diretor não conseguiu conquistar a confiança e entrar na intimidade de seus personagens. Por não ter escolhido previamente locações e boas histórias, me deixou com a sensação de ter desperdiçado o Tempo.

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