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segunda-feira, novembro 12, 2007

Kaio (filho de Juninho), Vitória (filha de Carlos Henrique) e João Gabriel (filho de Caio e meu sobrinho)



A criação de búfalos, a parada no Riviera, o cheiro de mato da serra, os caminhões piscando os faróis, as montanhas partidas, o último trevo, o mata-burros, a segunda porteira e o buzinaço dos carros: estávamos na fazenda de Cordeiro, onde passei toda a minha infância e boa parte da adolescência, entre pés de milho, de cana-de-açúcar, de goiaba, de jabuticaba, mexirica, café e o que mais a terra desse e nós pudéssemos colher.


Acordar cedo, na infância, só era bom em duas ocasiões: para ir à praia ou a Cordeiro. Ainda de madrugada, eu pulava da cama, tomava o banho, ajudava a levar a mala para o carro e aguardava ansiosamente a chegada dos tios que seguiriam viagem com a gente. Na hora de sair, os primos trocavam de pais, o legal era ir no carro do tio. Numa dessas, nunca esqueço o grito da minha tia, quando uma caminhonete pegou o Passat novinho do meu pai pela esquerda: CRISTIANO!!!! Era o meu primo, que escolhera aquele lado para sentar. Felizmente, o acidente foi leve, ninguém se arranhou, fora o carro.


Inúmeros fins de semana, feriados, carnavais, aniversários, férias passamos naquela fazenda, com meus primos que saíam de suas camas se faltasse lugar para todo mundo dormir. Mas, além do coração, a casa era grande: tinha lugar, e o legal era dormirmos todos juntos, nem que fosse no chão mesmo. Fazia frio naquele tempo. E eu tinha medo. Levantar de noite para ir ao banheiro nem pensar! O barulho das tábuas, os bois do lado de fora, as aranhas que conseguiam entrar, o escuro. A cidade era pequena, quase não tinha luzes. Quando andávamos até a estrada, o céu era repleto de estrelas, o chão, de cobras. Nada se via. Às vezes, se ouviam coisas.


A fazenda tinha seus personagens. Ribeiro, o escravo que cantava cantigas da senzala enquanto moía o café. Zé Barranco, o bêbado que andava por aí com sua garrafa de cachaça vazia. Os dois morreram e eu custo a acreditar, quando volto lá, que não vou encontrá-los na rua, com as roupas maltrapilhas e alguém a fazer pilhéria deles. Zé adorava meu pai, que lhe dava sempre algum para mais uma cachaça. Meus primos, para implicar comigo, me apontavam: olha aí, Zé, é filha do seu Luiz. E lá vinha o Zé querendo assunto. Eu corria.


Nas férias, nossa maior diversão era apostar quem conseguiria acordar com Jorge, o dono da fazenda, que saía de madrugada para ordenhar as vacas. Nunca conseguimos. No máximo, chegávamos quando quase todo o leite já estava pronto para ser levado até o mata-burros, onde era vendido, ou levado para os fregueses. E lá íamos nós, no carro de boi, levar o leite. Ainda bem que éramos levinhos... Outro passatempo era passar na serraria para tomar caldo de cana. Eu gostava de ir, mas não bebia. Assim como seguia com a turma para a jabuticabeira, mas não tinha coragem, eca, de comer o fruto com aquela gosminha branca. Já as mixiricas eu chupava. Passávamos horas sentados embaixo do pé, filosofando, descascando as frutinhas e separando os gominhos. Jogar milho às galinhas, imitar os perus (glu glu glu glu), moer café, descascar milho, comer milho assado no forno à lenha (à beira do qual nos esquentávamos nas manhãs mais frias), assistir à ordenha das vacas, correr dos gansos, sofrer com os urros dos porcos!! Os piores dias eram os de comer carne de porco e os adultos esqueciam de tirar as crianças da fazenda na hora de sacrificá-los (diz a lenda que quanto mais as crianças sofrem ao assistir ao sofrimento do bicho, mais ele demora a morrer).


Por falar em sofrimento de bicho, eu tinha um primo da fazenda (lá, eram cinco, fora os da cidade, que iam comigo) que gostava de maltratar gatos. Aliás, ele odiava a vida no mato. Um dia, ele jogou um pela janela e não sei como o bichinho se salvou, porque a fazenda era alta, tinha um porão enorme embaixo, de onde eu achava, na infância, que sairiam os piores fantasmas e bichos de verdade para nos atacar. E quando faltava luz na fazenda? Os primos aprontavam. Contavam histórias horripilantes, assustavam a gente com gritos, traziam bichos nas mãos e quase me matavam do coração.


Em dias de festa, era uma bagunça tão grande na casa que não sei como todos saíam arrumados na hora certa. E a comilança? Eram dias e dias em que a carne parecia se multiplicar, como os convidados que não paravam de chegar. Ai, o cheiro de broa, o ovo dentro do pão, a gema que escorria pro prato e pra roupa, invariavelmente. O suco de limão no balde, que Mariquinha, a dona da casa, servia com conchas nos nossos copos. O limão da roça tem outro sabor. Assim como as verduras e legumes, que as mulheres iam buscar na horta antes de preparar o almoço.


Os sabores da fazenda estão todos na minha alma, como se agora mesmo eu estivesse a senti-los e prová-los. Dos que eu mais gostava, o doce de goiaba no tacho era um dos melhores. Depois que ele era retirado, ainda tínhamos que esperar horas até ele endurecer e ficar pronto para o abate! E o ovo no café da manhã, é claro. Além do leite, que em algumas pessoas nem caía bem, de tão forte! O meu era temperado com açúcar cristal e Nescau, que eu não era de ferro. A lata do chocolate ficava lá, inteirinha, até a gente chegar. Tinha coisas que eu não entendia muito bem, certos hábitos que só os primos da cidade tinham, como esse de tomar leite com chocolate. No café da manhã, ainda tinha a manteiga feita por lá mesmo! Não existe sabor igual!


Minha mãe acaba de passar uma semana em Cordeiro. Diz que comeu, comeu, comeu, mas não passou mal um dia. Eu fui buscá-la e passei lá o fim de semana. Toda vez que venho de lá, e agora são raras as oportunidades, fico com essa nostalgia. Não existe mais fazenda. Os primos, quase todos, casaram. Têm filhos lindos, moram em outras casas, trabalham, têm suas vidas um tanto distantes da fazenda. Agora, têm só um sítio. João Gabriel, meu sobrinho, foi lá também. Adorou brincar com os novos primos, como eu e meu irmão também gostávamos. Tem alguma coisa naquele lugar que as crianças amam. Os adultos, como eu, sentem falta. Principalmente, de sentar do meio pro fim da tarde na porteira e ficar lá falando sobre a vida, os primos bonitos que a gente gostava de beijar, o passeio na cachoeira de ontem à tarde, a exposição de logo mais à noite, que vai ter show do Leandro e Leonardo, os amores deixados na cidade, o doce que Mariquinha está agora mesmo preparando, a broa com erva-doce de Marciane que está no forno, o casaco novo que vamos estrear à noite e a vontade de não voltar para casa, no dia seguinte, quando os primos todos choram, os que ficam e os que vão.

2 Comments:

  • "Lembrança até quando é boa dói", como observa o narrador do conto "Desfile" (peço excusas pela auto-citação, mas não resisti)

    By Anonymous Marcelo, at 3:07 PM  

  • Delicia de texto, Clau. Gosto muito de voce escrevendo por aqui.
    Beijo
    Deia

    By Anonymous Anônimo, at 8:31 AM  

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